A maldição dos dez anos, por Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-Ministro das Comunicações


    Não sou homem de acreditar em fantasmas e maldições, principalmente quando os assuntos são economia e, mesmo, política. Mas certos fatos reais muitas vezes nos deixam com a pulga atrás da orelha, como se dizia antigamente. Faz parte da cultura política das democracias modernas a observação de que é muito difícil que um período exitoso de um líder ultrapasse os dez anos. Apoiam este pensamento fatos concretos ocorridos em vários países, em vários momentos da história. Por isto, o mito dos dez anos é levado a sério por muitos analistas.
 
    Acompanhei intensamente dois exemplos: o governo de Felipe González na Espanha e o de Tony Blair no Reino Unido. Eles viveram, muito jovens, um período de glória em suas vidas e marcaram a história de seus países com suas ideias reformistas e o sucesso de suas ações. Vivem hoje afastados da política e dos holofotes e, certamente, sofrendo intensamente com o esquecimento de seus conterrâneos.

    Mas, se analisarmos com cuidado o que há de comum nesses dois exemplos – em outros casos em que o mesmo fenômeno ocorreu–, identificaremos com facilidade um ciclo de crescimento econômico simultâneo ao sucesso político do governo. Se ajustarmos com cuidado nosso radar de observação, vamos ver que o declínio no apoio popular a esses governos inicia-se pouco tempo após a mudança no ciclo econômico e o início de tempos mais duros para a população.

    Trago essa questão ao leitor da Folha na coluna de hoje por motivos óbvios. Os governos do PT –Lula e Dilma– foram atingidos em cheio pela maldição dos dez anos, com todas as características de períodos semelhantes em outras democracias presentes no nosso dia a dia. Como o sistema político brasileiro ainda passa por um período de amadurecimento e a sociedade brasileira é mais sanguínea do que a britânica e a espanhola, a sensação de fim de festa é mais forte e colorida entre nós.

    Apesar de enquadrada na figura da maldição dos dez anos, a crise do PT tem características próprias que precisam ser compreendidas. A mais importante delas é que, durante os anos de ouro do petismo entre 2005 e 2012, ocorreu uma mudança significativa na composição da sociedade brasileira. Como já escrevi várias vezes, neste período, mais de um terço dos brasileiros migraram da economia informal para a formal. Nesta passagem, alteraram de forma radical as suas vidas e a de seus familiares.

    Essa nova classe média sabe que isso foi possível porque a economia cresceu, milhões de empregos foram criados, e eles, neste novo quadro, passaram a ser considerados como elegíveis aos créditos bancário e comercial. Mas sabe também que sua estabilidade como novo cidadão depende majoritariamente de seu emprego e de seu salário. Em outras palavras, sua dependência à situação econômica do Brasil mudou de patamar e de importância e os riscos de voltarem à situação anterior são hoje elevados.

    O governo do PT não percebeu que, nesse novo quadro de composição da sociedade, a questão do crescimento econômico é mais importante que a simples menção à manutenção dos programas sociais de assistência ao terço da população que vive na economia informal. Pior ainda, a volta do crescimento depende de um período de recessão, devido aos ajustes que precisam ser feitos tanto no campo fiscal como no mercado de trabalho e no ajuste dos preços administrados.

    Ou seja, o governo vai ter que trabalhar em um cenário que nós economistas chamamos de curva J. A curva J quer dizer que a situação de insegurança econômica vai piorar antes de melhorar. Nos próximos meses o apoio da sociedade ao governo vai ser muito frágil, agravado ainda pelo escândalo da Petrobras envolvendo diretamente a direção do PT. Talvez a única mudança positiva neste difícil ano de 2015 seja o fortalecimento da economia global a partir da recuperação americana.

    Em outras palavras, ou o governo da presidente Dilma Rousseff mostra uma competência ainda não vista na gestão da economia e de suas relações com o Congresso e a sociedade, ou o Brasil vai se juntar aos países atingidos por essa maldição dos dez anos.

Luiz Carlos Mendonça de Barros,
colunista da Folha de São Paulo, é engenheiro e economista, ex-presidente do BNDES e ex-ministro das Comunicações.

Fonte: www.folha.uol.com.br

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