A amizade é antes de tudo confiança!


Leia o artigo de João Carlos José Martinelli:
    Diante da atual crise de valores, devemos meditar sobre o verdadeiro sentido que a amizade encerra, relevando sempre o relacionamento humano. Infelizmente, as funções de um amigo – dar um sorriso, um gesto de compreensão, um perdão, uma atenção, um cumprimento – estão se exaurindo no fechamento provocado pelo egoísmo reinante e pelas equivocadas visões de que ter e aparecer são mais meritórios do que ser.

    O Dia da Amizade, comemorado a 20 de julho, foi criado pelo filósofo e sociólogo argentino Enrique Ernesto Febbraro, inspirado pela chegada do homem à Lua, nesta data em 1969. Em alguns estados brasileiros como o Rio de Janeiro, sua celebração é determinada por leis próprias, motivadas estritamente por apelo comercial – um evento para troca de presentes. No entanto, o seu propósito original é incentivar a reflexão sobre esse importante e necessário instrumento de união entre as pessoas, notadamente num mundo extremamente consumista e competitivo.

    Com efeito, o dinamismo provocado pelos reflexos materialistas leva os indivíduos a se fecharem em si mesmos, pois passam a viver em função de ganhos, posição social e poder, como se tais aspectos fossem fundamentais às suas realizações. Esquecem de circunstâncias humanistas e imprescindíveis à própria felicidade, como gestos e atitudes fraternas, relacionamentos afetivos, solidariedade com o próximo, respeito a todos os seres vivos em geral e tantas outras, sobrepostas por interesses exclusivamente pessoais e ao mesmo tempo, eivados de puro egoísmo.

    Nesta trilha, vale invocarmos a psicóloga Rosely Sayão: “Fazer amigos ajuda a combater a ideologia consumista de nosso tempo, que pega tão pesado com os jovens, já que ter amigos subverte a lógica do consumo. Quem cultiva amizades entende que mais importante do que ter o poder de ter algo é ter alguém ao lado, poder contar com alguém” (Caderno Equilíbrio, Folha de São Paulo, p. 12 -25/08/2005 – “O Poder da Amizade na Adolescência”). Por outro lado, a amizade é citada por Aristóteles como uma das principais bases da consolidação do regime democrático. Ele igualou a amizade entre irmãos à democracia, que só seria possível pelo processo de fraternização. Efetivamente, as pessoas quando se entendem bem, mantém a ordem social de maneira objetiva tornando a igualdade uma característica da própria convivência.

    O consagrado jurista Miguel Reale Filho assim se expressou:- “Dizia Cícero que a amizade é antes de tudo confiança. Para que a relação entre duas pessoas se aprofunde o pressuposto é ver com simpatia o outro no seu modo de ser. Do contrário, há uma distância impeditiva de vir a prosperar o afeto. Essa distância não existe numa relação de igualdade, na qual cada um se torna solícito em face do outro, que se transforma não apenas na pessoa a ser conhecida, mas compreendida” (O Estado de São Paulo- “A Amizade e Seus Desafios”- 07.08.2011- A-2).

    A jornalista Daniela Neves apontou que “desde a época dos filósofos gregos, a relação entre amigos é comparada com a existente entre irmãos ou parentes próximos. Platão, Santo Agostinho e Montagne entendiam que a identificação como outro era porque no amigo se vê a própria imagem, a cópia de si mesmo. “Com efeito, quem olha para um amigo verdadeiro vê nele, por assim dizer; uma imagem de si mesmo. É por isso que os amigos, ainda que ausentes, estão presentes. Ainda que pobres, têm abundância; ainda que fracos, são fortes e, o que é mais difícil dizer, ainda que mortos, estão vivos: tamanha é a consideração, a lembrança, a saudade dos amigos que os acompanha (…)”, escreveu Santo Agostinho, em Confissões IV. De outro lado está o alemão Friedrich Nietzche que entendia que a relação fraterna e sem conflito não é a melhor forma de amizade. Para esse filósofo, devemos afastar os “bons amigos” que sempre dizem o que queremos escutar nunca criticam. No amigo, segundo ele, não devemos procurar uma adesão incondicional, mas a incitação, o desafio. Nietzsche dizia que no próprio amigo devemos ter “nosso melhor inimigo” (Caderno Viver Bem – “Sobre a Amizade”- Gazeta do Povo- Curitiba- PR- p.10- 20/07/2008).

    Deixando os extremos e as diversas concepções que o tema suscita, vale reiterar que diante da atual crise de valores, devemos aproveitar o DIA DA AMIZADE, para meditarmos sobre o verdadeiro sentido que ela encerra, relevando sempre o relacionamento humano. Infelizmente, as funções de um amigo – dar um sorriso, um gesto de compreensão, um perdão, uma atenção, um cumprimento – estão se exaurindo no fechamento provocado pelo egoísmo reinante e pelas equivocadas visões de que ter e aparecer são mais meritórios do que ser.

    Voltamos a insistir: quando formos capazes de pensar na satisfação de todos e não apenas nas vantagens pessoais, iremos superar a conjuntura moral do mundo e, em conseqüência, as dificuldades econômicas, sociais e tantas outras que afligem o homem atualmente.





João Carlos José Martinelli é advogado, jornalista, escritor e professor universitário. Presidente da Academia Jundiaiense de Letras (martinelliadv@hotmail.com)

Fonte: http://solpaz.blogs.sapo.pt/

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