Terapia das Doenças Espirituais com o padre Paulo Ricardo: as filhas da vaidade


    Esta aula pretende ser um verdadeiro exame de consciência. Normalmente, quando um pregador menciona simples e vagamente a palavra “vaidade”, as pessoas em volta ficam em dúvida se possuem ou não esse pecado. É, afinal, quando se conhece as suas filhas, isto é, os pecados que se originam desse vício capital, que o penitente identifica com mais facilidade onde está errando e, então, põe os remédios para livrar-se da doença espiritual.

    Diz-se que um pecado, como a vanglória, é capital, justamente por ele ser “cabeça” (caput/capitis, em latim) de outros pecados. São Gregório Magno elenca, como filhas da vaidade, sete vícios. “Da vanglória – diz ele – nascem a desobediência, a jactância, a hipocrisia, a contestação, a obstinação, a discórdia e a presunção do novo” [1].

    Embora pareça aleatória, a lista apresentada por Gregório tem uma razão de ser, e é Santo Tomás de Aquino, com a sua capacidade extraordinária de análise e sistematização, quem explica como esses pecados se originam da vaidade. A brilhante explanação do Aquinate se encontra no artigo 5.º da questão 132, da segunda seção da segunda parte (secunda secundae) da Suma Teológica.

    Como já visto, “o fim da vanglória é a manifestação da própria excelência”, que pode se dar de dois modos: diretamente, quando a pessoa quer fazer brilhar a sua glória exaltando-se a si mesma; e indiretamente, “quando alguém quer manifestar sua superioridade mostrando que não é inferior aos outros”.

Diretamente, as filhas da vaidade são três:
    A jactância, que se dá por meio de palavras (per verba), é a falta de quem fica se gabando e contando as suas pretensas virtudes aos outros, contaminado que está pela ânsia de louvar a si próprio;
    A ânsia de novidades (praesumptio novitatum), que se origina de atos verdadeiros (per facta vera), é o pecado que leva, por exemplo, os responsáveis pela liturgia a quererem “inventar a roda” e adaptar danças e teatros indevidos para a celebração da Santa Missa; e
    A hipocrisia, que se origina de atos falsos (per ficta), acontece quando uma pessoa quer demonstrar, com as suas ações, alguma virtude que ela, na verdade, não possui; a origem grega dessa palavra quer dizer, literalmente, “máscara”.

Indiretamente, as filhas da vaidade são quatro:
    A teimosia (pertinacia), quanto à inteligência, “que nos leva a nos apegar demais à nossa própria opinião, de modo a não aceitar nenhuma opinião melhor”;
A discórdia, quanto à vontade, “quando alguém não quer abandonar sua vontade para concordar com outros”;
A disputa (contentio), quanto à linguagem, “quando alguém briga com outros, entre gestos e gritos (dum aliquis verbis clamose)”; e
A desobediência, quanto à ação, “quando alguém não quer executar o preceito do superior”.
Diagnosticados detalhadamente os vários aspectos do problema, é possível partir à cura da doença, coisa que faremos na próxima aula.


Referências:
Comentário Moral ao Livro de Jó, XXXI, 87 (PL 76, 621).


Fonte: https://padrepauloricardo.org

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