Professora Luzia Yamashita Deliberador revela pioneirismo à Gazeta do Povo

Com o título “De espontânea vontade”, o jornal Gazeta do Povo publicou a seguinte entrevista da professora Luzia Yamashita Deliberador, pioneira do Curso de Comunicação na Universidade Estadual de Londrina (Uel). O trabalho foi realizado por Adriana Brum e Renan Colombo. (Foto: Alexandre Mazzo/Gazeta do Povo)

Uma gueixa às avessas. Filha de japoneses, a professora universitária Luzia Yamashita Deliberador, 60 anos, puxou do pai a ligação com o campo. Da mãe Marina, o “bicho carpinteiro”. Mas, enquanto a mãe segue fazendo caligrafia oriental e escrevendo um diário, Luzia coleciona títulos, prêmios e um milhão de amigos. É voluntária quase em tempo integral.
Lá se vai uma década e tanto a serviço dos idosos, sem abandonar a Universidade Estadual de Londrina, a UEL, onde na década de 1970 fez nascer o curso de Comunicação Social. Leitora e praticante de Paulo Freire, acabou atraindo os olhares vesgos da ditadura, o que lhe rendeu uma pasta nos arquivos do DOI-Codi. Disso quase não fala. A vida andou.

Como não sossega, meteu-se com comunicação rural, comunitária e educomunicação nas andanças pelas escolas do Norte do Paraná. Hoje, faz rádio, jornal e debates com crianças de escolas públicas, enfrentando mães e professoras que teimam em cantar no coro dos contentes.

Mas nada que lhe tire o humor. Em 50 minutos de conversa com a Gazeta do Povo, no clube japonês Acel, não parou de se preocupar com a sopa que queria oferecer à reportagem. Estava ali para servir.

Em tempo. Luzia nasceu em Uraí. Mas diz que bem podia ser Açaí. São ambas terras de japoneses. Aos 10 anos se mudou para Londrina, para sempre. Ali se casou e teve dois filhos, hoje advogados. Um mora em São Paulo, outro em Londres. Por causa deles usa o skype, única parafernália que se permite.

Onde os garotos estiverem, sabem que a mãe está sempre em pé às 7 da matina. Que passa horas lendo textos de orientandos. E outras tantas com todo o resto.

Luzia tem 60 anos e faz trabalho voluntário com a terceira idade.

Você se considera idosa?
Se alguém me chamar de ditian [avó] nunca mais olho na cara. [risos] É por causa do meu pique. Tudo que faço, faço com prazer. Faço porque acredito. Faço porque posso mudar as coisas e levar outras pessoas a fazer o mesmo.

A sociedade desenvolveu a proteção à criança. O idoso ficou para trás?
Pode-se perceber isso comparando o número de pediatras e o de geriatras. Londrina tem mais de 500 pediatras. Geriatras, não mais de dez. Não há interesse em investir em quem não produz mais. É a cultura midiática, né – jovem, forte, sadio… A Coca-Cola só mostra jovens.

Como é que muda isso?
Com troca de saberes. Assim: uma orientanda minha fez um projeto de jornal em uma escola. No exemplar número 1, tratou de moda. As matérias eram sobre como deixar o uniforme mais bonito, tênis de grife, etcetera. Já no número 2, discutiu a merenda, a situação das merendeiras. Sugeriu uma horta.

Já são quantos anos de Universidade Estadual de Londrina?
Façam as contas. Comecei com 21 anos e dez meses. Era mais nova que muitos dos meus alunos. Eu me aposentei em 2005, mas continuo na pós-graduação de Comunicação Popular Comu­nitária. Não consigo deixar a sala de aula. Oriento de seis, sete projetos por ano. Voluntariamente. Não tenho obrigação de estar na universidade todo dia, mas produzo, recebo aluno em casa, empresto livro. Gosto disso.

Quem passou pelas suas salas de aula?
Jornalistas como o Sandro Dalpicolo, a Dulcinéia Novaes. Todos… [risos]

… o Barbosa Neto… [político, jornalista e prefeito de Londrina]
[risos] Não foi meu aluno. Na época dele eu estava na Reitoria.

Por que você escolheu cursar Economia Doméstica?
Eu morava no sítio. O licenciado em Economia Doméstica trabalhava com os agrônomos e suas famílias. E eu queria continuar na zona rural.

Fale do sítio…
Meu pai tinha 8 anos quando veio para o Brasil. Minha mãe chegou na barriga da minha avó. Ganhou o nome de Marina para agradar à dona da terra em que a família dela parou. Sempre viveram na terra. Tiveram sete filhos. Meu pai plantou no sítio todas as palmeiras do Brasil. Aonde ia, arrumava mudas, plantava, cuidava. Cultivava flores. Frutas não eram para vender, mas para dar para os amigos. Morreu faz cinco anos. Hoje sou eu quem cuida da terra com minha mãe. Eram 60 alqueires. Hoje são 30.

Tem lembranças da geada de 1975?
Eu era adolescente e foi a única vez que vi meu pai chorar. Amanheceu tudo gelado. Muito triste. Não tinha o que colher. O IBC [Instituto Brasileiro do Café] pagava para cortar os pés. Dizem que o café acabou por causa da geada de 1975… Mas foi por causa da política econômica, claro. Teve o Delfim Netto, o “Plante que o Governo Garante”, a mecanização agrícola.

O café mantinha as pessoas nas propriedades rurais. As colônias ofereciam lazer e comida. E de repente uma colheitadeira de soja substitui 300 pessoas nos cafezais. Bolsões se formaram nas periferias. Virou terra de gente pobre em uma região rica.

Você viu todos esses prédios de Londrina subindo…
Nossa Senhora… Quanto eu tinha 10 anos, a [avenida] Higienópolis não ia nem até onde hoje está a Confeitaria Holandesa. Londrina é muito paulista. Foi numa cidade assim que comecei a trabalhar com os produtores rurais.

Quando era estudante, eu tinha uma coluna diária no jornal Paulista Shimbun, voltada para japoneses. O pessoal da USP me conheceu e falou que eu tinha de fazer pós em Comunicação na ECA. Em 1973, passei em um concurso público na UEL e vim montar o curso de Jornalismo, com o professor Ruy Fernando Barbosa, um homem que participou da revista Realidade.

E aí teve problemas com o DOI-Codi…
Eu trabalhava com Paulo Freire, né? Imagine uma escola que só via a parte técnica… E chega alguém perguntando “ei, o que vocês vão dar de retorno para a sociedade?”. Incomoda. Tudo bem. Tive oportunidade de fazer as pessoas refletirem. Hoje, tenho vários ex-alunos trabalhando no MST. E aluno que entrou aqui pensando em ganhar dinheiro e foi trabalhar com pequenos produtores.

Você não faz questão de exibir seus projetos. Por quê?
Na medida em que a gente começa achar que o que fazemos é o mais importantes, perdemos a capacidade de enxergar as coisas boas dos outros. Fazendo autopromoção eu ficaria caolha. [risos] O Paulo Freire dizia: “Ninguém sabe tudo e ninguém é ignorante total.” A consciência do saber pouco é que faz crescer.

Mídia e educação. Como começou essa história?
Um dia me dei conta de que escolas pararam no tempo. Continuavam com o quadro-negro, os livros didáticos e a fala do professor, sendo que a criança já vai para a aula sabendo trabalhar com a internet, com tudo. Entendi que a comunicação, mesmo informalmente, está educando até mais que a escola e a família. Hoje, o professor não pode ignorar mais a mídia.

Os professores conseguem fazer esse tipo de leitura?
Via-se a mídia como prejudicial, nociva. Os pais falavam “desligue isso”. Não é por aí. Tem de assistir junto, comentar o que é benéfico e o que não é. Nada de só proibir. Antigamente, as crianças só conheciam sua rua. Hoje, conhecem o mundo inteiro pela rede. Viu os trabalhos que fizemos em Sarandi?

Conte…
Não se trata de dar o microfone para a criança. Quando é assim, ela simplesmente oferece música para o paquera. Trabalhamos com oficinas. Começamos pela “identidade”, para que se perguntem quem são. A gente brinca até com massinha de modelar. Pedimos para fotografar o que gostam e o que não gostam no bairro onde moram. Perguntamos: “O que você fez para melhorar?” Res­pondem: “Nada, sou criança”. Sim, são crianças, mas podem fazer algo. Escrevem uma carta para o prefeito. Levamos os prefeitos até eles. Criança crítica dá mais trabalho. [risos]

Vira um debate…
Muitas instituições só dão a ferramenta – o iPad, o computador. E não transformam o aluno em cidadão. Depois do nosso trabalho, as próprias crianças se organizam. Em uma dessas escolas de Sarandi, elas mesmas criaram um Dia da Conscientização, chamaram os pais. A criança que destruiu uma parede fala: “Nunca mais vou fazer isso.”

O que leva as crianças a tratarem a escola como inimiga?
Não ter consciência de que a escola é pública. Ao ouvir que a escola também era responsabilidade dos pais, uma mãe disse “que pagava impostos”. Nós somos culturalmente individualistas. O Brasil muda a muito custo.

É difícil implantar um trabalho assim?
Muitos pais me dizem: “Meu filho começou a prestar mais atenção no noticiário, conversa mais com a gente, está mais responsável”. As crianças são fantásticas, criativas. Trabalhei com várias que estavam em vias de ser expulsas da escola. Os “hiperativos” são os melhores, porque colocam toda a energia nas tarefas. Criança não é problema. Jovem não é problema. O problema é o adulto.

Alguém já quis eleger a Luzia?
Atuei politicamente dentro da universidade. Fui chefe de departamento, vice-reitora, pró-reitora de extensão. Mas nunca me filiei a partido. Fui convidada. Políticos se ofereceram para pagar minha campanha para vereadora, deputada. Nunca aceitei. Não sirvo porque não sei fazer negociata.

Estar a mil em tantos projetos, agregando pessoas, estimulando a pensar, já lhe trouxe problemas?
Pelo contrário. Me considero privilegiada por poder conviver com as pessoas. Planto o carinho dos outros para o meu futuro. Tenho de seguir sempre viva. Afinal, vou virar idosa, né?

Veja mais fotos e vídeo:
http://www.gazetadopovo.com.br/entrevistas/conteudo.phtml?tl=1&id=1170303&tit=De-espontanea-vontade

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