Milagres na “Sociedade Viva Cazuza”


Vale a pena ler o depoimento de Maria Cristina Castilho de Andrade*:
    Li, emocionada, o livro “O tempo não para: Viva Cazuza”, depoimento de sua mãe, Lucinha Araújo, a Christina Moreira da Costa. Recebi de presente da jornalista Mari Carla Giro. É a vivência de Lucinha na “Sociedade Viva Cazuza’, fundada por ela e o marido em 1990, no mesmo ano em que o filho,  poeta do rock, partiu. Tem como missão dar assistência a crianças e adolescentes vivendo com HIV/AIDS e familiares, através de tratamento com qualidade associado a carinho e individualizado, para que preserve a personalidade de cada um.

    Além de transbordar o amor imenso pelo filho e seu jeito de ser da ousadia e da luta, com o propósito de reverter a discriminação e o descrédito que impuseram à enfermidade, relata fatos de superação de suas crianças.  A respeito do preconceito, afirma: “Mas quando o preconceito não é fruto da desinformação é muito difícil combatê-lo. Principalmente quando é velado. É a pior forma, porque é covarde”.

    Na década de 80, eu já atuava, pela Pastoral, junto a mulheres marginalizadas. Acompanhei o declínio de algumas a partir da AIDS, como também a seus filhos.  Recordo-me de que, ao visitar uma delas no hospital, a moça, que se encontrava no leito ao lado, me perguntou se teria coragem de segurar suas mãos. Fiz isso. Não aguentava mais sentir o toque apenas de luvas de látex, até mesmo dos parentes.

    Todas as histórias me chamaram a atenção e, em meio a elas, a do menino subnutrido. Ao se recuperar, tudo o que encontrava punha na boca para comer, talvez por estar nele a memória da fome. Convivem, como relata, com: “irmãos de pais diferentes, de mães diferentes, crianças crescendo com um elo mais forte com o padrasto do que com o pai…”  Pela experiência, constatam que a AIDS é apenas mais um problema na vida dessas pessoas. “Histórias de abuso sexual, maus-tratos e abandono são tão comuns que levam as crianças a se adaptar sem dificuldades quando chegam à casa”.

    Assegura que manteve a fé, embora não tenha conseguido que Santa Rita de Cássia e o Cristo Redentor salvassem seu filho e diz: “Vejo nas crianças da Viva Cazuza um milagre. Elas salvaram a minha vida, elas são a continuidade do Cazuza, que revive em cada sorriso, cada brincadeira, cada arte, cada sonho”.

    Concluo que Lucinha testemunha a Páscoa, entende de ressurreição, pois coloca Céu nas experiências de precipícios.

*Maria Cristina Castilho de Andrade 
Professora e cronista. Coordenadora diocesana da Pastoral da Mulher – Santa Maria Madalena/ Magdala. Jundiaí, Brasil.

Fonte: www.solpaz.blogs.sapo.pt – Blogue luso-brasileiro

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