A Igreja está preparada para o mundo cibernético e para a divulgação de Cristo na pós-modernidade?

O escritor e padre Elmo Heck (v. foto), mestre em Bíblia, pároco de Nossa Senhora da Conceição, em Butiatuvinha, responde a essa e outras perguntas na entrevista concedida ao jornal Voz da Igreja que circula na Região Metropolitana de Curitiba.

Com os tablets e toda a mídia eletrônica, seria num futuro próximo a proclamação da Palavra através de um IPad?

ELMO HECK – Antes os judeus utilizavam rolos de couro de animais para escrever e guardar a Palavra.
Depois veio o papiro e o papel. Surgiu então a Bíblia, que significa “conjunto de livros”. E agora, no universo digital, tudo se tornou ainda mais acessível.
Ao seu ver, a Palavra atingirá melhor o coração das pessoas através das novas tecnologias digitais? Quais os pontos positivos e negativos desta modernidade?
ELMO HECK – A Palavra de Deus sempre será válida, em livros ou no universo digital. O mundo tem sede de Deus; por isso, os pontos positivos da entrada das novas tecnologias nos meios de comunicação da Igreja são muitos. A Palavra no meio moderno da comunicação é um fato que não podemos desmerecer. É também urgente anunciar pelos meios atuais, pois Deus é sempre atual e moderno, assim como os seus dizeres. Gosto de ver a Bíblia digitalizada e usada nos computadores. Também é de bom senso usar dos meios de comunica¬ção para anunciar a Boa Nova.

Os riscos mais eminentes desta modernidade tecnológica são o individualismo e o subjetivismo que a própria modernidade carrega em si. Para muitos, os computadores trazem informações úteis e inúteis; porém, o excesso do virtual gera a perda do contato vivencial. Cada indivíduo passa a criar a sua religião, o seu Deus e o seu mundo, no qual lida com a sociedade como subalterna a sua vontade. Não vale mais a sociedade como um todo, mas o todo vale ou não para o meu mundo. A modernidade vive o egoísmo que leva à descrença de todas as instituições.

Em muitas cerimônias solenes do catolicismo usa-se o Evangeliário [livro católico, usado na missa, durante a Liturgia da Palavra). Com os tablets e toda a mídia eletrônica, seria um futuro próximo a proclamação da Palavra através de um IPad?
ELMO HECK – O Lecionário e o Evangeliário sempre vão fazer parte da liturgia, jamais serão substituídos por tablets. Agora, fora dos templos, nada impede que sejam usa¬dos para evangelizar.

Para anunciar a Palavra de Deus, podemos usar os meios de comunicação disponíveis, o que não significa que devemos deixar de lado a tradição e aquilo que dá sentido às nossas celebrações litúrgicas. Os folhetos são uma demonstração de que se deixou a Bíblia de lado. Hoje, utiliza-se os meios eletrônicos, mas não deixamos de anunciar a Palavra. O saudoso papa João Paulo II apregoava que é necessário usar dos meios de comunicação para fazer conhecer a Cristo.

Usar o tablet para proclamar a Palavra de Deus, em lugares comuns, é uma boa opção. Eu mesmo tenho a Bíblia no meu celular e certa vez a tive que usar. Agora, em liturgias, acho que deverá ter um estudo e uma palavra oficial da Igreja sobre o assunto.

Nós, como Igreja, estamos preparados para o mundo cibernético e para a divulgação de Cristo na pós-modernidade? Não corremos o risco de simplesmente ignorar até mesmo o que disse a Exortação Apostólica Verbum Domini (documento do sumo Pontífice sobre a “Palavra de Deus”, na vida e na missão da Igreja”)?
ELMO HECK – A Exortação Apostólica Verbum Domini veio alertar os abusos que se faz da interpretação e do uso indevido da Bíblia. A Palavra de Deus é sempre a carta Magna que deve ser respeitada no seu uso, mas também é importante salientar a mudança teológica e hermenêutica ocorrida ao longo dos séculos. A Palavra não é estática, ela permanentemente se reinterpreta; aliás, os diversos livros bíblicos são a interpretação um do outro. Não haveria teologia se a Palavra de Deus fosse estática.

O senhor acredita que em algum dia os livros cederão totalmente aos espaços virtuais?
ELMO HECK – Os livros jamais cederão para os espaços virtuais. Quando surgiu a televisão, diziam que o cinema acabaria. Percebemos, porém, o contrário. A televisão tem seu lugar, e o cinema está bem vivo e melhor que na época do surgimento da televisão.

O mesmo acontecerá com os livros impressos. Vão melhorar, mas não acabar. A tecnologia tem o seu espaço e beneficiará bastante aos primeiros. Nada é permanente, a não ser a mudança. Portanto, seja livro impresso ou virtual, a Palavra de Deus será sempre mudança e permanência no coração de quem crê.

Fonte: Voz da Igreja, Curitiba-PR, setembro 2011, página 8.
Colaboração: Pe. Lourenço Mika, CM

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