A gata Arisca. Uma crônica de Tereza de Mello

Nunca gostei especialmente de gatos, embora em pequena tivesse tido um gato, o Adelino. Era amarelo com laivos mais escuros, como as madeixas que algumas louras fazem no cabeleireiro, e que não fez história, ou pelo menos não me lembro o que é natural porque era muito novinha. Apenas me ficou na memória o que ria em surdina quando havia visitas. Ele gostava de as arranhar à traição. Escondia-se debaixo das cadeiras de palhinha e era um fartar vilanagem. Se elas eram de cerimónia faziam um sorriso amarelo, se eram íntimas da casa gritavam, levantavam-se e fugiam espavoridas e furiosas.
Bem, mas à noite acalmava. Dormia no meu quarto numa cama de madeira, à sua medida, dentro de lençóis, também pequenos, almofada, cobertores e colcha. Tudo a preceito até a camisa de noite e a toca de rendas que tinha sempre o cuidado de lhe vestir e pôr antes de o deitar.
Já casada, a viver em Abrantes, cheguei a ter mais de vinte, todos com nome e coleira. A razão foi por me terem deixado um casal à porta e, claro, não podia abandoná-lo. Como são animais, embora domésticos, muito independentes, faziam pela vida, comendo os ratos e ratazanas que abundavam na quinta. E também tinham a comida do Vadio um enorme cão da serra. Depois do almoço, quando o apanhavam deitado era uma festa. Saltavam para cima dele e muito quietinhos, dormiam a sesta, como bons amigos que eram. Claro que não cabiam todos ao mesmo tempo. Penso que se organizavam primeiro ou deitariam à sorte, não sei. E como competia à natureza, cresceram e multiplicaram-se de tal maneira que um ano depois já contava vinte. Bem, não eram só eles. Outros também tinham vindo cá parar igualmente abandonados e os casamentos foram seguidos. Juntos ou separados trepavam às árvores, saltavam para cima dos muros, brincavam uns com os outros.

Todas as noites, antes de me deitar ia à porta da rua chamar: “Gatinhos, gatinhos.” E lá vinham eles numa correria louca a ver quem chegava primeiro. Só esse podia entrar para dormir comigo.

Tudo acontecia na maior das harmonias, embora o meu marido dissesse que parecia uma tonta. Eu deixava-o falar. E aqui entre nós, penso que nunca percebeu que dormia também com um gato aos pés da cama. Havia como que uma cumplicidade entre mim e o felino, pois tudo era feito na maior dos segredos, numa conjugação perfeita. Até que um belo dia de chuva e frio fiquei doente com uma pneumonia. Dias seguidos sem poder ir chamar por eles. Quando fiquei curada e me levantei, tinham desaparecido. Até hoje estou sem perceber como tal aconteceu. Só sei que seis anos depois chegou o Malaquias, qual filho pródigo, mas já velho, a perder o pelo, muito magro, e a fugir de todos, de toda a gente, menos de mim. Quando cheguei ao jardim e me sentei numa cadeira de verga, ele saltou para o meu colo, com um miar estranho. Por onde teria andado? Perguntei-lhe mas nunca tive resposta. No dia seguinte disseram-me que tinha morrido… Não digo o que senti, pois se não gosto de gatos, sempre preferi cães… Mas penso que teria motivo para mandar averiguar aquela estranha morte.

Toda esta introdução para chegar à minha Arisca. Aqui começa a história.
Foi o meu sobrinho neto Sebastião que a encontrou na rua, há anos na Ponte da Barca. Não sei quantos, mas muitos. Ele era uma criança ainda e agora é um homem alto, espadaúdo, e quase engenheiro.

Pois naquela tarde apareceu-me com ela ao colo, enquanto me dizia: “— Ó tia encontrei este gatinho que não me larga. Andou todo o dia atrás de mim. Eu bem o enxotei, mas ele não se foi embora.”

“ Mas deve ter dono, respondi, já a sacudir a chuva do capote. Vamos dar-lhe leite e depois rua. A “família” deve estar aflita.”

Qual leite, qual carapuça. Não bebeu, nem comeu nada do que lhe dei.

E o gatinho sempre atrás de nós, como um cão fiel. No fim do nosso jantar fui pô-lo no jardim que dava para a rua, na esperança de nunca mais o ver.

No dia seguinte lá estava ele. Parecia que esperava por nós e condescendente lá o deixei entrar. A cena repetiu-se no dia seguinte e no outro. Não sei como se aguentou tanto tempo sem comer. Eu tinha jurado a mim mesma que enquanto houvesse fome no mundo nunca compraria whiskas, mas o malvado sem comer tantos dias continuava a não gostar de leite, que é sabido ser um bom repasto para eles… Então não tive outro remédio senão ir comprar os tais granulados.

Pois o nosso amigo que afinal era gata e não um gato, disse-me a cozinheira, não só comeu como devorou tudo o que lhe dei. Nessa noite dormiu no meu quarto, o que passou a ser um hábito.

Entretanto o Sebastião tinha-se ido embora com os pais, mas chegara outra leva de sobrinhos – netos que iam para as festas de Ponte do Lima, as Feiras Novas. Eu já não ia. Tinha-me fartado de essas andanças de viras, chulas e malhões. Nem o fogo de vista me entusiasmava e ficava com a gata, que ingrata não aceitava nem uma festa. Olhava-me com um olhar profundo com uma mistura de despeito e gratidão. Os seus olhos enormes, verdes e em bico brilhavam intensamente. Esticava uma pata com as unhas de fora, mas apenas fazia o gesto de arranhar, não se atrevia, e logo sacudindo a cabeça dava um salto e escondia-se debaixo do móvel mais próximo. Nunca percebi aquelas reacções porque, depois quando me ia deitar seguia-me sempre, mas altiva, arrogante, sem permitir uma festa, um carinho, nada. Daí o nome de Arisca.

Passado dias adoeceu. Imóvel em cima de uma cadeira parecia chorar. Confesso que senti um alívio. Ainda não estava “apaixonada” por ela. Foi quando o Diogo, outro dos sobrinhos netos, me chamou a atenção e então achei-me com a obrigação de fazer qualquer coisa. Fui buscar a lista de telefones e dei-lha. Ele percebeu e de telefone em punho tanto procurou que acabou por encontrar um veterinário que estava em Viana do Castelo, mas tinha consultório na Barca.

“_ É uma vaca que está a parir ? – perguntava o médico”.
“ _ Não. Respondia o Diogo. E continuava: –É a gatinha da minha tia que está doente.

“ _ Diga-lhe que sou muito velhinha e que só tenho a gata por companhia, que é de muita estimação, repetia-lhe eu, envergonhada por lhe estragar o dia, que ainda por cima era domingo. E o senhor voltou para o seu consultório. Nós todos, em fila indiana fomos lá ter. Eu levava a Arisca ao colo no qual aproveitou para fazer as suas necessidades.

O médico, muito atencioso, até lhe cortou as unhas, mas a desgraçada estava mesmo doente com uma pneumonia. Nessa mesma tarde, com um certo receio, comecei a tratá-la. De tantas em tantas horas remédio pelas goelas abaixo. Sentia remorsos de a ter deixado tantas noites ao frio. Era como uma forma de me redimir. E o certo é que me fui afeiçoando a ela. Dias depois já estava curada e, talvez por gratidão, uma noite saltou para a minha cama e lambeu-me a cara toda. Eu deixei. Era como que o selar da nossa amizade que começava. De novo sozinha na Barca passou a ser realmente a minha companhia. Comecei a falar com ela. Foi quando a ouvi miar pela primeira vez… Mas que miar estranho. Parecia que falava. Nenhuns dos outros gatos que tinha tido miavam assim. Apurei melhor o ouvido, não havia dúvidas, quando me zangava com ela a Arisca chamava-me má… má… Quando queria ir para a quinta e eu não deixava, quando a enxotava da minha cadeira preferida, sempre que a contrariava, chamava-me má… Não havia dúvidas. Aquilo não era natural, mas guardei segredo. O que seria se eu contasse. Nem faço ideia. Pelo menos davam-me por interdita.

A Arisca crescia a olhos vistos. Tornou-se numa gata muito grande, enorme mesmo, o espanto de todos os veterinários, linda com o seu focinho e colo, não de garça, porque é muito felpuda, mas também todo branco. O resto do corpo cinzento com riscas pretas, simétricas e muito bem desenhadas. Por vezes dou por mim a olhar fascinada com aquela obra – prima do criador.

Uma vez trouxe-me um passarinho, com muito cuidado para não o magoar, que deixou a meus pés, mas este chegou quase moribundo. Bem o tratei, tentando curá-lo mas em vão. Certamente para o segurar melhor tinha-lhe dado uma dentada tão grande que o pobrezinho tinha sangue em todas as penas. Penso que não fez por mal, a intenção era das melhores.

Também gostava de jogar às escondidas comigo. Chegava ao pé de mim, olhava-me com um olhar especial a desafiar-me e desatava a galope de sala em sala, a escorregar no encerado, a tropeçar nos reposteiros, acabando por se esconder debaixo de um móvel ou de um “maple”onde esperava por mim, para recomeçar a correr e esconder-se noutro lado qualquer. Outras vezes olhava-me com um olhar melancólico e ficava horas no mesmo sítio sem se mexer. Outras, o seu olhar era especial, muito atento, fixo e distante. Eu seguia-o, mas não via nada. Parecia que tinha visões. Bem a chamava mas nessas alturas não me obedecia. Nas outras parecia um cãozinho, só não me dava a pata. Obedecia sempre. Tinha inventado um dialecto especial para falar com ela. Palavras curtas, sempre as mesmas, que ela já percebia tais como: venha, embora, coma, não, etc. Obedecia cegamente.

E os meses foram passando. Quando chegou Novembro e comecei a fazer as malas e a fechar a casa, lembrei-me da Arisca. Não podia e nem queria fazer o mesmo que os outros donos. Não a podia abandonar. E vai daí, entre a bagagem sempre volumosa, entre caixas de cartão com vinho verde, sacos com as inevitáveis compras da feira, malas, malinhas, embrulhos, lá veio também a Arisca.

Sabe-se, ou diz-se, que os gatos não conhecem dono, mas apenas os locais onde estão habituados. Pois a gata tem um poder de adaptação admirável. Não estranhou nada, nem quando passou a ir comigo também para Lisboa. Apenas confundiu a seda das paredes com as arvores onde aparava as unhas que entretanto tinham crescido… E lá fiquei com a seda das paredes toda rasgada. Também não gostava que eu a deixasse sozinha. Não percebo como adivinhava que eu ia sair, pois já era Primavera e ia para a rua exactamente como estava em casa, nem casaco vestia. A malvada para me castigar vinha por detrás e dava-me uma dentada nas pernas. O sangue escorria e lá tinha eu de ir mudar de meias. Mas para me compensar esperava-me sempre empoleirada na cómoda da entrada. E continuava com os seus ralhos: -má! má …

Eu tinha o segredo bem guardado. Não falara disso a ninguém, mas numa noite estando a fazer o jantar com uma amiga de longa data, enquanto eu mexia o refogado a Arisca, também o quis provar e como eu a afastei do fogão começou a ralhar-me. Ela ao ouvir aquele fraseado arregalou os olhos, olhou-me, quase se engasgou e disse:”- Mas está a chamar–lhe má…” “Não gosta de ser contrariada”, respondi, como se fosse a coisa mais natural do mundo, e continuei a cozinhar. Finalmente podia revelar o meu segredo. Tinha pelo menos uma testemunha.

No Verão seguinte, de novo na Barca recebia os sobrinhos netos com os seus amigos e então, fazendo conversa ao jantar contei as habilidades da gata. Eles por educação, não disseram o que pensaram de mim e começamos a falar de outras coisas. Dias depois quando se iam embora a Arisca resolveu ir despedir-se deles ao jardim e como não a deixei sair começou com o seu miar especial. Então eles espantados tal como a minha amiga nem queriam acreditar e acabaram por dizer em coro: “ – Ò tia, mas ela está a chamar-lhe má.”

_ Pois está respondi calmamente, eu não lhes tinha dito que a Arisca falava…

E eu continuava também a falar muito com ela, desabafava os meus inúmeros problemas de saúde e não só. Nessas alturas ela olhava-me de uma maneira diferente, quase carinhosa, penso que me compreendia, mas não me consolava ou aconselhava, o que de certo modo era um bem porque assim também não me contradizia, como certas pessoas.

As nossas relações não podiam correr melhor, com respeito uma pela outra. De dia passeava ou fazia-me companhia enquanto eu trabalhava. Depois do jantar, no geral, ia dar a sua voltinha. Era muito noctívaga e penso que teria encontros clandestinos, mas como também sou dada a noitadas, muita vez quando voltava ainda eu estava levantada e só depois íamos para o quarto. Dormíamos de mão dada. Até que chegou o dia do regresso a Abrantes. Ela sabia, sabia sempre de antemão, nunca percebi como. Ficava triste, acabrunhada e escondia-se constantemente. Era o pavor do cesto. Do cesto onde teria de ficar fechada, enquanto durasse a viagem de carro.

Nesse ano quando cá chegamos esperava-nos uma surpresa. A casa virara hotel. Hotéis de gatos… Ele eram pretos, amarelos, brancos, cinzentos, quase de todas as cores. Felinos por todos os lados a brincarem na quinta, a dormirem a cesta nos sofás das salas. A Arisca não gostou nem eu, mas depois os caseiros, que também guardam a casa, explicaram-me a razão daquela invasão. Tinha aparecido uma gata-preta vadia, cheia de fome, a procurar casa e, se possível, família que a adoptasse. E ficou. Os namorados que começaram a aparecer eram mais do que muitos. Penso que a gata-preta terá um passado, que será melhor não averiguar. Mas tinha a sua moral, os seus princípios, pirula não era com ela, nem qualquer outro processo que evitasse os filhos que a natureza lhe desse. E a mãe natureza foi pródiga com ela. O resultado estava à vista…Tal como anos antes quando à noite ia ao jardim chamar: — gatinhos… –gatinhos…

Mas a Arisca quase ficou possessa. Sentia-se destronada, trocada por aqueles vagabundos sem educação. Ela que devia ter sangue real, se o País dos Gatos fosse uma monarquia, tal a sua altivez e postura em todas as circunstâncias. A sua educação de princesa, incapaz de saltar para cima da mesa da casa de jantar e comer a minha dieta, ou coisa semelhante. Uma humilhação. Só podia revoltar-se e, pela primeira vez, que eu saiba, pois nunca antes tinha visto, começou a assanhar-se sempre que algum deles queria conversa. E eles, atrevidos, vingavam-se indo ao prato dela comer tudo. Nessas alturas a Arisca nem reclamava, seguia altiva no seu porte majestoso, votava-os ao desprezo.

Vi-me grega e usei de toda a diplomacia possível para evitar consequências desastrosas. Nunca afaguei nenhum dos gatos na sua presença. Cheguei a fechá-la num quarto para que não me visse agarrar neles quando os queria pôr na rua. Só ela tinha direito, por estatutos próprios e adquiridos, aos meus carinhos e a dormir em casa, na minha cama de mão dada comigo, como já contei.

Só que tal nunca mais aconteceu… Despeito? Ressentimento? Nunca percebi. Só sei que durante meses votou-me ao desprezo, deixou de saltar para cima da minha cama e, dormir de mão dada, nem pesar. Só meses depois, ao acordar comecei a ver a Arisca a meu lado, mas com a devida distância, nada de intimidades. Ia depois de eu adormecer e logo que eu abria os olhos saltava para o chão, como que envergonhada de ter sido apanhada em flagrante delito.

Mas quando adoeci e fiquei de cama ela percebeu e passava os dias enroscada como uma cobra numa cadeira perto de mim. Só quando me levantei ela voltou para a quinta e então ninguém a apanhava. Corria, pulava, sem descanso, trepava às árvores, saltava e tornava a correr e a pular, como que dando largas à sua alegria.

Devia ter problemas e conflitos psicológicos. Se por um lado, apesar de humilhada, continuava minha amiga, por outro a sua dignidade não a deixava ceder a sentimentalismos. Seria ela como as pessoas com sentimentos e personalidade própria? Se a Arisca é para mim uma gata especial, porque não serei eu também especial para ela?… Uma amizade de tantos anos não se desfaz assim facilmente, por isso está a passar por uma fase de hesitação, sem saber ao certo o que fazer. E se assim for, bate tudo certo. Todas as suas atitudes têm razão de ser. Só que a Arisca não é uma pessoa, perdão, uma gata normal, pois se até me chama má….

TEREZA DE MELLOAbrantes, Portugal

Tereza de Mello é o pseudônimo literário da poetisa, Senhora Dona Maria de Lourdes Brandão de Mello, já falecida, e que honrou, durante anos, o blogue Solpaz, com a sua colaboração. Dela disse Alfredo Guizado :“ Dispõe da pena com leveza, com simplicidade, sabendo contar o que nem todos são capazes de fazer.” E Luis Forjaz Trigueiro: “ A sua poesia vem ao surgir, amplamente definida e segura quanto ao que exprime.”

Fonte: http://solpaz.blogs.sapo.pt/

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