No princípio de tudo deve estar a Palavra de Deus. Ela deve ter primazia e centralidade na Igreja

Dom Orlando Brandes

No livro ”Pároco de uma Aldeia”, Bernanos coloca nos lábios de Jesus uma pergunta ao pároco: ”Que fizeste com a minha Palavra?”. Esta pergunta é muito atual e questionadora. Muitos de nós fizemos da Palavra um enfeite em nossas casas, um livro de estudos, pior ainda, um livro desconhecido e ignorado. A Bíblia já foi em determinadas circunstâncias um livro até proibido. Ouvi confissões de pessoas mais idosas que se acusavam de ter lido Bíblia.

Sofremos ainda hoje uma indiferença, ignorância e confusão em relação às Escrituras. Infelizmente, crescemos numa cultura antibíblica porque ser bíblico equivalia a ser protestante. O cardeal maltês Prosper Grech conta que foi acusado de luteranismo pelo fato de decidir fazer estudos bíblicos em Roma.
É necessário superar a grande distância que muitos cristãos têm em relação à Bíblia. Muitos de nós substituímos as Escrituras pelo terço e pelo catecismo, talvez sem perceber que o terço e o catecismo são intimamente ligados à Palavra de Deus. O cardeal Marc Ouellet, relator do Sínodo da Palavra, escreveu: ”É preciso remediar a ignorância que temos das Escrituras”. Como é raro ver católicos com a Bíblia na mão.

A Pontifícia Comissão Bíblica, presidida então pelo cardeal Ratzinger nos convidava a um ”apostolado bíblico”. O documento intitulado ”Interpretação da Bíblia na Igreja” diz: ”Devemos nos alegrar em ver a Bíblia tomada por mãos de gente humilde, dos pobres, que podem trazer à sua interpretação e à sua atualização uma luz mais penetrante do ponto de vista espiritual e existencial do que aquela que vem da ciência segura dela mesma” (nº3 pg 155).

O Sínodo da Palavra nos convidou a redescobrir a Escritura Sagrada, a ter familiaridade com a mesma. Convida-nos a nos debruçar, abeirar, entrar, permanecer na Palavra. Impele-nos a ter um apego à Palavra, a consagrar-nos a ela, por meio de uma relação pessoal diária e constante. Mais ainda: precisamos amar a Palavra, deixar-nos cativar por ela e inclusive por ela morrer. Estevão, João Batista, Paulo são os primeiros mártires da Palavra.

No princípio de tudo deve estar a Palavra de Deus. Ela deve ter primazia e centralidade na Igreja. A Palavra fará de nós discípulos convictos e convincentes. ”Não podemos ser apenas oradores, mas, principalmente orantes da Palavra” (D. A. Miranda). Terminou o exílio da Palavra e deve terminar todo bloqueio, medo, entorpecimento bíblico. ”A Escritura não pode ser anulada” (Jo 10,35). Pelo contrário, ela deve fazer arder nossos corações. Um coração bíblico é um coração transpassado pela Palavra.

Todo cristão deve ter uma vida cativada pela Palavra, pois ela é o ”motor de tudo” (Bento 16) ela é bússola da humanidade. ”A plenitude da Palavra é o amor. Quem não ama não compreendeu as Escrituras” (Santo Agostinho). A Bíblia não é um livro morto, nem velho, nem apenas livro para estudos, curiosidades e brigas. É o livro da vida, da amizade, da verdade, iluminante e consolador.

A Palavra tem uma voz: a revelação. Tem um rosto: Jesus de Nazaré. Tem uma casa: a Igreja. Tem um caminho: a missão. A erva seca, a flor murcha, mas a Palavra permanece. A Palavra se fez carne, se fez tradição, se fez livro para que nós possamos ouvi-la, tocá-la, contemplá-la. Hoje a Palavra se faz carne na Eucaristia e quer fazer-se carne em cada um de nós.

”Tudo foi escrito para nossa instrução, perseverança, consolação e esperança” (cf Rm 15,4). Que a Palavra corra veloz, não devemos acorrentá-la e sim anunciá-la.

Dom Orlando Brandes, arcebispo de Londrina

Fonte: www.folhaweb.com.br

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