O nosso Deus não é um conceito: é um Deus de amor que se faz Criador, Salvador e Guia

por CEBI/Instituto Humanitas Unisinos (IHU)

       Mesmo que a palavra “trindade” designe algo abstrato, o nosso Deus não é um conceito: é um Deus de amor que se faz Criador, Salvador e Guia para a nossa felicidade.

       A reflexão é de Marcel Domergue, sacerdote jesuíta francês, publicada no site Croire, comentando as leituras da Festa da Santíssima Trindade (26 de maio de 2013). A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara, e José J. Lara.

A Sabedoria do começo
       Não passemos com pressa demais sobre a primeira leitura. Como o Novo Testamento vê em Cristo a Sabedoria de Deus, ficamos sabendo que o Cristo está aí desde o começo. Falo do Cristo sim: deste Cristo de sempre, que se tornou homem em Jesus de Nazaré, quando “os tempos se cumpriram”. É este o Jesus dos nossos evangelhos, de quem Paulo fala, em Colossenses 1,15-20: “Ele é a imagem do Deus invisível (a visibilidade do invisível), primogênito de toda criatura; porque nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra.”
       Paulo não fala somente do Verbo, como no início do Prólogo de São João: para ele, é exatamente o “Verbo encarnado” que está aí, muito antes do aparecimento do homem; a Sabedoria do livro dos Provérbios é Ele, que está em ação em todas as coisas para produzir a Imagem e Semelhança de que fala Gênesis 1. Esta expressão que define o homem define em primeiro lugar o Filho, em quem Deus se conhece e se reconhece.
       Com Jesus, revela-se à plena luz do dia o que está fora do tempo. Nele, saído de si mesmo, Deus se revela: “generosidade expansiva”, conforme o biblista Paul Beauchamp. Não que, além de Deus, haja mais esta generosidade. Não. Ele é esta generosidade. “Deus é amor”. Existir, para Ele, consiste em se dar este “face a face semelhante a si mesmo” e, no entanto, sendo outro. Outro tirado de si mesmo (Gênesis 2,18 e 22-24). Isso é o que nos ensina a vinda de Jesus. Ver: Tito 3,4 e 1Jo 1,1-4.

O Espírito e a Sabedoria
       Há na Sabedoria “um Espírito inteligente, santo, único, múltiplo, sutil…” (Sabedoria 7,22). Este Espírito é “artífice de todas as coisas”. Mas, então, quem é criador? O Pai, o Filho ou o Espírito? Digamos que quem cria é esta troca, esta tríplice relação que “constitui” Deus. Nós fomos concebidos e assumidos numa relação de procriação. Deus é procriador, procriado, procriação. Foi preciso muita audácia aos primeiros cristãos para que cressem nisto e que o dissessem, a partir do gesto de Jesus e do dom do Espírito.
       A imagem que fazemos de Deus, do divino, transformou-se radicalmente. Não se pode mais dizer simplesmente que Deus é Um; é preciso dizer que é “União”, conforme santo Inácio de Antioquia que conclui que só existimos verdadeiramente como homens fazendo-nos também “União”. Um só corpo. A “função” atribuída ao Espírito é de ser a uma só vez o agente da comunhão entre o Pai e o Filho e quem dá ao Cristo um corpo novo, corpo a uma só vez uno e múltiplo.
       O sopro de Deus, que é a sua própria vida, expande-se e se comunica, fazendo-nos existir por participação com a natureza divina (2 Pedro 1,4). O Sopro carrega a Palavra e a Palavra se vê dar um corpo, o que vale para a Anunciação e, finalmente, para o Pentecostes. Só podemos existir sendo assumidos no intercâmbio trinitário.

Um programa para a humanidade
       Temos, pois, que voltar a nos ligar ao “divino” que se revela dom de si. Isso exige a duração toda da nossa história: o que vale para cada um de nós e para a humanidade inteira. Mas será preciso esperar até o “final dos tempos” para que o Deus-União termine esta criação “à sua imagem”? De fato, entramos na comunhão divina a cada vez que, com os outros, criamos ligações autênticas.
       Lembremos este canto muito antigo: “Onde há a caridade e o amor, aí Deus está”, ou ainda estas palavras de Jesus: “Quando dois ou três se reunirem em meu nome, eu estarei no meio deles”. Ele está “no meio” para ser o “meio” no qual nos encontramos. Não apenas o mediador, o que faz o traço de união, mas a própria união; nele chegaremos a ela. Fazendo-nos irmãos, portanto, é que nos tornamos Filhos. Entramos já, por certo, na eternidade de Deus, mas permanecemos no tempo; nosso estatuto de irmãos e de filhos é para ser sempre reconquistado, sem cessar, no decorrer dos eventos e encontros de nossas vidas.
       A Trindade, que parece estar sempre tão acima de nós, tão distante, está, no entanto, bem aqui, ao alcance de nossos corações e de nossas mãos. Vivemos tudo isto na obscuridade da fé. Enquanto esperamos a plena revelação, busquemos viver e agir em Cristo, Ele que é a visibilidade do Pai (Santo Irineu). E o Espírito é que dá testemunho.

Fonte: http://www.cebi.org.br

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