Reflexões Homiléticas para junho de 2013, elaboradas pelo Pe. Tomaz Hughes, SVD

NONO DOMINGO COMUM (02.06.13)
Lucas 7,1-10
“Senhor, eu não sou digno…”
A nossa leitura de hoje inspirou a frase tão conhecida que usamos na Missa antes da Comunhão: “Senhor, eu não sou digno de que entres na minha casa, mas diga uma só palavra e serei salvo” (v.6). A profissão de fé em Jesus, feita por um desconhecido oficial romano, à beira do Mar da Galiléia, tornou-se a expressão da realidade de quem ousa aproximar-se da mesa eucarística. É na mesma hora um reconhecimento da nossa fraqueza e também da grandeza e gratuidade de Deus, que supera qualquer falha nossa.
A história situa-se bem dentro da política lucana (Lucas) de nunca falar mal dos romanos (uma visão bem diferente da política de João no Apocalipse). Lucas é um grego, e tem outra experiência do Império Romano do que os oprimidos judeus da Palestina – uma experiência de opressão e exploração que os levaria a duas guerras sangrentas e desastrosas, de 66/72 d.C e de 132/135 d.C.Também, o autor quer respeitar os seus destinatários – nas comunidades das cidades gregas do Império – muitos dos quais ligados às instituições romanas e imperiais.

     O oficial na história era pagão, não judeu, mas pertencia ao grupo conhecido como “tementes a Deus”. Isso é, simpatizantes do judaísmo, crentes no Deus único, mas não pertencentes oficialmente à religião judaica.No Império Romano muitos pagãos estavam cansados da idolatria e da imoralidade que marcavam a sociedade, e admiravam o monoteísmo e a seriedade ética do judaísmo.Mas, se recusavam a assumir a prática da circuncisão e outros ritos.O oficial em questão deve ser visto nesse contexto.
Mas, ele, embora sendo pagão, manifesta mais fé do que os próprios judeus – a ponto de causar a exclamação de Jesus:
“Ouvindo isso, Jesus ficou admirado.Voltou-se para a multidão que o seguia, e disse: “Eudeclaro a vocês que nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé!” (v.9).
       Com profundo respeito, ele nem pede que Jesus entre na sua casa – pois tal ação deixaria Jesus ritualmente impuro!Tem confiança absoluta em Jesus – basta a palavra d’Ele para que a cura se concretize!Aqui temos mais um exemplo do interesse de Lucas em enfatizar o poder da Palavra de Jesus (por exemplo, na versão lucana da cura da sogra do Pedro, Jesus não toca nela, como em Marcos, mas só ameaça a febre, e com a sua palavra, essa deixaa mulher -Lc 4,39).
Um pagão serve de exemplo para a multidão!Na boca de alguém considerado “impuro” se expressa a mais profunda fé!Quantas vezes a mesma coisa acontece hoje – pessoas consideradas impuras, ou tolas, ou ignorantes, dão lição de fé a nós, às vezes formados na teologia, praticantes dos sacramentos, estudiosos da religião?A fé não depende do grau do estudo – é uma atitude profunda que brota da intimidade com Deus.
É de notar também a prontidão com que Jesus atende o pedido para ajudar o oficial.Embora esteja consciente que o homem é estrangeiro e pagão, a compaixão faz com que Jesus não se amarra aos limites costumeiros da prática religiosa do seu tempo, mas se prontifica até a entrar na casa de um “impuro”, pois para Jesus, ninguém pode ser taxado de impuro.
“Senhor, dê-nos a fé do oficial romano, e de muita gente simples e humilde. Diga uma só palavra e a nossa falta de fé será curada! Ajude-nos também a cultivar a compaixão que derruba as barreiras artificialmente criadas por causa da etnia, cultura, religião ou condição de vida.”

DÉCIMO DOMINGO COMUM (09.06.13)
Lucas 7,11-18
“A compaixão de Deus”
Novamente nos deparamos com um dos temas centrais de Lucas: a compaixão de Jesus, ou melhor, a compaixão de Deus manifestada em Jesus.Em qualquer sociedade, em qualquer época, a morte do filho único de uma viúva seria trágica.Mas, na sociedade patriarcal do tempo de Jesus, mais ainda.Pois uma mulher, sem marido e sem filho, seria totalmente desamparada, sem segurança qualquer.“Ao vê-la, o Senhor teve compaixão dela” (v.13).
Ele nem a conhecia, não sabia se era ‘gente boa”, “gente de fé”, ou não.Bastava ver o seu sofrimento para que Jesus sentisse compaixão dela.Lucas aqui desafia a todos nós para que superemos o moralismo e a mania de julgar, para simplesmente ver as pessoas com os seus sofrimentos, como Jesus as vê; para termos “coração de carne e não coração de pedra” (Ez 36,26).Peçamos este dom – pois realmente é uma graça de Deus!
Jesus disse-lhe “Não chore!” Quantas vezes ouvimos estas palavras de “pano quente” dirigidas às pessoas sofridas, para que escondam o seu pranto e parem de nos incomodar.Mas, na boca de Jesus, não são meras palavras paliativas; mas, garantia de esperança!Ele não conforta com palavras vazias, mas faz o que pode.Tais palavras só têm sentido quando pronunciadas por pessoas solidárias, que tomam passos concretos para aliviar as dores alheias.
“E Jesus o entregou à sua mãe”(v. 15b). Com essa frase, Lucas evoca a figura do Profeta Elias, que devolveu o filho único morto à viúva de Sarepta (1Rs 17,23).Nesse gesto de Jesus, feito em solidariedade e com compaixão, a multidão vê a presença do Deus misericordioso e amoroso:“Glorificavam a Deus dizendo: “Um grandeprofeta apareceu entre nós, e Deus veiovisitar o seu povo” (v.16).
É certo que nós não temos poder de ressuscitar fisicamente os defuntos – mas, podemos lutar pela vida, pela saúde, contra a morte prematura, em favor de um sistema social adequado de saúde!Podemos ressuscitar pessoas desanimadas, com palavras de coragem e ânimo: “O Senhor Javé me deu a capacidade de falarcomo discípulo, para que eu saiba ajudar os desanimados com uma palavra de coragem.”(Is 50,4)
Podemos sentir e manifestar compaixão, ser solidários, ser sinal da presença do Deus de vida.Lucas nos desafia mais uma vez, para que a nossa vivência cristã leve os sofridos a dizer:“Realmente Deus visitou o seu povo!”

DÉCIMO PRIMEIRO DOMINGO COMUM(16.06.13)
Lucas 7,36 – 8,3
“A quem foi perdoado pouco, demonstra pouco amor”
O trecho de Lucas de hoje – por sinal riquíssimo – trata de três temas característicos desse Evangelho:
– a misericórdia de Deus;
– o relacionamento de Jesus com as mulheres;
– o perigo que todos nós corremos de nos considerarmos “justos”, desprezando os outros.
Lucas é um verdadeiro artista de palavras.Seria quase impossível ler ou ouvir esse trecho sem imaginar a cena.Jesus e os convidados, não sentados à mesa, como nós no Ocidente, mas reclinados sobre almofadas; a chegada da mulher, desprezada na vila por todos, com certeza sentindo-se humilhada, mas movida por uma força maior que a faz enfrentar corajosamente o desprezo dos outros e penetrar por dentro da casa de um fariseu – coisa inédita!Mas quem é impulsionado pelo amor e pela experiência de Deus não mede esforços.Depois, as lágrimas – não de tristeza, mas de gratidão, de alívio, de uma profunda alegria do ser – o enxugar dos pés, o perfume.
E a reação de Simão, o fariseu!Ele, que se julga “justo” e não “pecador” – com razão, segundo os critérios da sociedade e da religião oficial do tempo – se dá o direito de julgar tanto a mulher, como a Jesus.Para ele, como para muitos de nós, ser justo é cumprir as leis, e assim deixar de ser pecador.Cumprir as leis, Simão faz com afinco!Assim, ele se justifica (se torna justo), dispensando, na realidade, a graça e o perdão de Deus.Quem considera que não esteja necessitado de perdão, jamais será capaz de entender a sua força transformadora, que nos capacita para o amor.
Jesus, porém, reage de uma maneira bem diferente.Através da parábola dos dois devedores, ensina que é a experiência de ser perdoado que leva ao amor.Não o contrário!A mulher na história não foi perdoada porque ela antes muito amou, mas muito amou porque ela foi antes perdoada!O amor é a consequência da ação do perdão de Deus.Quem nunca foi perdoado, dificilmente vai perdoar; quem nunca foi amado, terá dificuldade em amar.O perdão de Deus não é a reação d’Ele à nossa iniciativa de amar – pelo contrário, é Deus quem toma a iniciativa de perdoar, e essa experiência de sermos perdoados nos capacitará para que possamos amar.O nosso amor é a nossa resposta à iniciativa gratuita e amorosa do Pai – não temos que conquistar este amor e este perdão, nem merecê-los, mas aceitá-los, assumi-los e responder a eles. Com certeza, esta mulher deve ter se encontrado antes com Jesus na vila e, talvez pela primeira vez sentiu-se amada e perdoada por Deus.Assim, transborda de alegria e emoção, fazendo o que fez na casa do fariseu.
Todos nós corremos o risco de agirmos como Simão!A formação dele, rígida e legalista, o impediu de acolher a mulher e também de reconhecer em Jesus a compaixão e misericórdia de Deus.Muitas vezes, temos recebido uma formação espiritual que na verdade era em grande parte “farisaica”, baseada no cumprimento de leis e práticas externas de piedade, que são importantes, como se nós pudéssemos nos justificar diante de Deus.Temos de refazer a experiência de Paulo, fariseu ferrenho, que descobriu que nenhuma prática religiosa – por mais importante que seja – pode nos justificar.A vida de Paulo mudou quando ele fez a experiência da gratuidade do amor de Deus, e o resto da vida dele foi uma resposta a este amor gratuito.Mas, a consequência de uma formação errada pode ser de nos darmos o luxo de julgar, classificar e desprezar os outros, que são “pecadores”, conforme os nossos critérios.Cuidemos com o fermento dos fariseus!
       Esse trecho dá grande destaque às mulheres.Jesus rompeu com as tradições patriarcais e machistas do Seu tempo.Não só se deixou tocar por mulheres “pecadoras” – assim, se tornando impuro conforme as leis do tempo – como se fez acompanhar nas suas andanças pela Galiléia por várias mulheres, que faziam parte do seu grupo de seguidores/as.Não é claro se Lucas salienta este ponto para refletir a grande liderança de mulheres nas suas comunidades, ou, pelo contrário, para contestar uma tendência machista de cortar esta liderança, lembrando aos seus leitores que Jesus não aceitava nenhuma discriminação baseada em gênero.Durante séculos, a Igreja, em grande parte, perdeu esta novidade de Jesus, assumindo os padrões patriarcais e machistas da sociedade dominante.Devemos voltar a esta visão de fraternidade e igualdade entre homens e mulheres, como pede o Papa João Paulo II na sua Exortação Apostólica “Vita Consacrata”, quando ele conclama as mulheres a serem protagonistas de um “novo feminismo”(VC 58): “Por certo, não se pode deixar de reconhecer o fundamento de muitas reivindicações relativas à posição da mulher nos diversos âmbitos sociais e eclesiais.Do mesmo modo, é forçoso assinalar que a nova consciência feminina ajuda também os homens a reverem os seus esquemas mentais, o modo de se autocompreenderem, de se colocarem na história e de a interpretarem, de organizarem a vida social, política, econômica, religiosa, eclesial.” (VC 57).
       Que o Evangelho de Lucas nos ajude a recuperarmos as atitudes de Jesus, para que as nossas comunidades sejam realmente comunidades de fraternidade, igualdade, perdão, misericórdia e amor!

DÉCIMO SEGUNDO DOMINGO COMUM (23.06.13)
Lucas9, 18-24
“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e me siga”
Aqui temos a versão lucana(Lucas) da profissão de fé de Pedro, que Marcos põe no caminho de Cesaréia de Filipe (Mc 8, 27-35) e coloca como pivô de todo o seu evangelho.Este trecho levanta as duas perguntas fundamentais de todos os evangelhos:
– quem é Jesus?
– o que é ser discípulo d’Ele?
       São duas perguntas interligadas, pois a segunda resposta depende muito da primeira. A minha visão de Jesus determina a maneira do meu seguimento d’Ele.
O Evangelho de Lucas situa o texto em um contexto diferente dos outros dois Evangelhos Sinóticos – diz que Jesus “estava rezando em um lugar retirado, e os discípulos estavam com ele”, enquanto em Marcos e Mateus o evento se dá na estrada de Cesaréia de Filipe.Uma atitude típica de Jesus em Lucas.Muitas vezes no Terceiro Evangelho, especialmente antes de momentos importantes na sua vida, Jesus se acha em oração.Pois Ele não faz nada por vontade própria, mas escutando a vontade do Pai.
O diálogo começa com uma pergunta um tanto inócua:“Quem dizem as multidões que eu sou?”É inócua, pois não compromete – o “diz que” não compromete ninguém, pois expressa a opinião dos outros.Por isso, chovem respostas da parte dos discípulos: “João Batista, Elias, um dos antigos profetas que ressuscitou!”Mas, Jesus não quer parar aqui, – esta pergunta foi só uma introdução. Depois vem a facada!:
“E vocês, quem dizem que eu sou?”Agora, não chovem respostas, pois quem responde vai se comprometer – não será a opinião dos outros, mas a opinião pessoal!Esta opinião traz consequências práticas para a vida.Finalmente, Pedro se arrisca: “O Messias de Deus”.(Os termos “Messias” em hebraico e “Cristo” em grego têm o mesmo sentido = o Ungido de Deus.)
      Mas, a reação de Jesus é no mínimo estranha!:“Ele proibiu severamente que eles contassem isso a alguém”.Que coisa esquisita!Jesus proíbe que se fale a verdade sobre ele!Como é que ele espera angariar discípulos deste jeito?O assunto merece mais atenção.
Realmente, Pedro acertou em termos de teologia, de “ortodoxia”, conforme diríamos hoje.Ele usou o termo certo para descrever Jesus.Mas, Jesus quer esclarecer o que significa ser “O Messias de Deus”.Pois, cada um pode entender este termo conforme a sua cabeça, conforme os seus desejos.Jesus quer deixar bem claro que ser “messias”, para ele, é ser o “Servo Sofredor” de Javé. É vivenciar o projeto do Pai, que necessariamente vai levá-lo a um choque com as autoridades políticas, religiosas, e econômicas, enfim, com a classe dominante do seu tempo:
“O Filho do Homem deve sofrer muito,ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto, e ressuscitar no terceiro dia” (v 22). Essa visão que Jesus tinha do Messias, não era a comum – em geral o pessoal esperava um messias triunfante, glorioso e guerreiro.O relato em Marcos (mas não a versão em Lucas) nos mostra que Pedro partilhava essa visão errada, ao ponto de tentar corrigir Jesus, e de ganhar de Jesus uma correção dura:“Fique atrás de mim, Satanás!Você não pensa as coisas de Deus, mas as coisas dos homens” (Mc 8,33).
       Não basta ter os termos e títulos certos – temos que ter o conteúdo certo.Normalmente, todos nós temos os títulos certos para descrever Jesus e a sua missão – aprendemos desde a infância, desde a catequese paraa Primeira Comunhão.Mas, o que significam esses títulos para nós na nossa vivência diária?Professamos que Jesus é o Cristo, o Salvador, o Redentor, o Filho de Deus – mas como ‘de quê a minha vida é diferente porque tenho essa crença?Ele realmente é o meu Senhor, o meu Salvador, da maneira que procuro reproduzir e atualizar as suas opções e atitudes na minha vida, não somente no que creio, mas nas minhas atitudes na vida pública, profissional, familiar e social?A Bíblia nos conta que Deus criou o homem e a mulher na sua imagem e semelhança; mas, na verdade, nós criamos Deus em nossa imagem, e semelhança, para que ele não nos incomode.A nossa tendência é de seguir um messias triunfante, e não o Servo Sofredor.Mas, para Jesus, não há meio-termo. O discípulo tem que andar nas pegadas do seu mestre:“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e me siga” (Lc 9,23).
O seguimento de Jesus leva à cruz, pois a vivência das atitudes e opções d’Ele vai nos colocar em conflito com os poderes contrários ao Evangelho.Carregar a cruz, não é aguentar qualquer sofrimento, não.Assim, a religião seria masoquismo!Carregar a cruz é viver as consequências de uma vida coerente com o projeto do Pai, manifestado em Jesus.Segui-Lo não é tanto fazer o que Jesus fazia, mas o que Ele faria, se estivesse aqui hoje.Como Ele foi morto, não pelo povo, mas por grupos de interesse bem claros “os anciãos,os chefes dos sacerdotes e os doutores da Lei” (a elite dominante em termos econômicos, religiosos e ideológicos), os seus seguidores entrarão em conflito com os grupos que hoje representam os mesmos interesses.Por isso, sempre haverá a tentação de criarmos um Jesus “light”, sem grandes exigências, limitado a uma religião intimista e individualista, sem consequências políticas, econômicas ou ideológicas.Seria cair na tentação de Pedro, conforme o relato de Marcos.
O texto faz ressoar para cada um de nós as duas perguntas de Jesus.É fácil responder o que os homens dizem d’Ele – o que dizem o Papa, o Bispo, o catequista, os teólogos, a TV.Mas esta pergunta não é tão importante.É a segunda que cada um tem que responder: “Quem é Jesus para mim?”E a resposta se dará não tanto com os lábios, mas com as mãos e os pés.Respondemos quem é Jesus para nós, pela nossa maneira de viver, pelas nossas opções concretas, pela nossa maneira de ler os acontecimentos da vida e da história.Tenhamos cuidado com qualquer Jesus que não seja exigente, que não traz consequências sociais, que não nos engaja na luta por uma sociedade mais justa.Pois, o Jesus real, o Jesus de Nazaré, o Jesus do Evangelho, não foi assim, e deixou bem claro:“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e mesiga.Pois, quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas quem perde a sua vidapor causa de mim, esse a salvará”(Lc 9,24)

FESTA de SÃO PEDRO e SÃO PAULO (30.06.13)
Mt 16, 13-20
“E vocês, quem dizem que eu sou?”
       Aqui temos a versão mateana(Mateus) da profissão de fé de Pedro, que Marcos (Mc 8, 27-35) coloca como pivô de todo o seu evangelho.Este trecho levanta as duas perguntas fundamentais de todos os evangelhos: quem é Jesus? O que é ser discípulo d’Ele?São duas perguntas interligadas, pois a segunda resposta depende muito da primeira. A minha visão de Jesus determinará a maneira do meu seguimento d’Ele.
       Como refletimos domingo passado sobre a versão lucana desse texto (Lc 9, 18-24), remetemo-nos àquela reflexão e aqui somente assinalaremos alguns poucos pontos a mais, já levando e conta o que foi escrito para dia 23 de junho.
       Depois de Jesus interrogar duas vezes os discípulos, o texto de Mateus acrescenta vv. 17-19, pois quer destacar o papel de Pedro (e, por conseguinte, dos líderes da sua própria comunidade), na função de ligar e desligar da comunidade, que nos Evangelhos somente aqui e em Cap. 18 é chamada de “Igreja”.“As chaves do Reino” não se refere aqui ao poder de perdoar pecados, mas de integrar e desligar pessoas da comunidade dos discípulos.
O fundamento, o alicerce, a pedra fundamental dessa comunidade é o conteúdo da profissão de Pedro “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo”.Mas continuam no ar as duas perguntas que são o cerne do Evangelho: “Quem é Jesus?”, e “o que significa segui-Lo?” Pois os termos que Pedro usa são ambíguos, porque cada um os interpreta conforme a sua cabeça.Por isso, Jesus toma uma atitude, aparentemente estranha: “Ele ordenou os discípulos que não dissessem a ninguém que ele era o Messias!”
        Que coisa esquisita!Jesus proíbe que se fale a verdade sobre ele!Como é que Ele espera angariar discípulos deste jeito?O assunto merece mais atenção.
Realmente, Pedro acertou em termos de teologia, de “ortodoxia”, conforme diríamos hoje.Ele usou o termo certo para descrever Jesus.Mas, Jesus quer esclarecer o que significa ser “O Messias de Deus”.Pois cada um pode entender este termo conforme os seus desejos.Jesus quer deixar bem claro que ser “messias” para Ele é ser o “Servo de Javé”. É vivenciar o projeto do Pai, que necessariamente vai levá-lo a um choque com as autoridades políticas, religiosas, e econômicas, enfim, com a classe dominante do seu tempo, e não o Messias nacionalista e triunfalista das expectativas de então.Pedro teve que aprender essa exigência do discipulado, de uma maneira lenta e dolorosa, passando até pela negação de Jesus na noite da sua prisão.Aprendeu tão bem que chegou a dar a sua vida como mártir, também morrendo, conforme a tradição, em uma cruz, no Circo de Nero em Roma, onde atualmente se localiza a Basílica que traz o seu nome. Aprendeu a duras penas ser discípulo de verdade e cumprir a missão que recebeu de Jesus na Última Ceia: “Eu rezei por você, para que a sua fé não desfaleça.E você, quando tiver voltado para mim, fortaleça os seus irmãos”(Lc 22,32).Aqui temos o essencial do ministério petrino (Pedro), continuado no Papa – confirmar e fortalecer a fé dos irmãos e irmãs.A Igreja sempre deve zelar que acréscimos históricos, mais adequados a monarcas do que a discípulos, não escondem essa missão essencial.
       Paulo, que durante os seus primeiros anos da vida adulta, perseguia os discípulos, também teve a graça da conversão, chegando a afirmar que não queria saber nada a não ser Jesus Cristo e Jesus Cristo Crucificado! (1Cor 1,2).Ele também pagou com a sua vida essa decisão pelo discipulado.
       No nosso tempo, quando é moda apresentar um Jesus “light”, sem exigências, sem paixão, sem Cruz, sem compromisso com a transformação social, o texto nos desafia para que clarifiquemos em qual Jesus acreditamos.

       O Jesus quebra-galho, que existe para resolver os meus problemas pessoais, tão propagado por setores da mídia e por diversos movimentos e pregadores, ou o Jesus bíblico, o Servo de Javé, que veio para dar a vida em favor de todos?

Pe. Tomaz Hughes, SVD
E-mail: thughes@netpar.com.br

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